Como a implementação do BIM vem ganhando cada vez mais terreno na Construção Civil, guias e manuais de boas práticas têm surgido no Brasil.
O Guia AsBEA de boas práticas em BIM, (AsBEA), contempla atualmente dois fascículos: I – Estruturação do escritório de projeto para a implementação do BIM (2013) e II – Fluxo de projetos em BIM: planejamento e execução (2015).

Segundo os autores, “ o Guia será desenvolvido em diversos fascículos. O conteúdo geral abrangerá desde a estruturação dos escritórios de projeto, passando pelas necessidades de treinamento, infraestrutura, fluxo de trabalho, elaboração de bibliotecas e componentes, até a análise das necessidades dos contratantes e formatação de contratos em BIM…. Nossa expectativa é que este Guia possa desmistificar os conceitos do BIM e clarear as necessidades e os caminhos para iniciar o desenvolvimento de projetos em BIM, plataforma esta que passa a ser cada vez mais um processo irreversível….”


Sobre o Fascículo I

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Capa Fascículo II

Apesar da linha comum do BIM, cada um dos seis capítulos no fascículo capta um conceito básico sobre o tema. Em uma tentativa de fornecer ordem, os autores agruparam o tema em seis capítulos. O primeiro capítulo trata da organização e estruturação dos escritórios e inclui o papel do BIM na estratégia competitiva da empresa. Recomenda a criação de um plano de implementação, destacando sua estrutura de conteúdo em: objetivos, metodologia de implantação, planejamento de infraestrutura, recursos humanos e prazos. O capítulo “Definição dos usos do BIM” tem como foco relacionar os principais usos do BIM nas fases de Projeto, Construção, Operação e Manutenção. O terceiro capítulo, “Papéis e matriz de responsabilidades” procura classificar funções dentro do escritório para as novas demandas que o BIM trará. Numa tentativa de redistribuir os papéis às equipes (sic) são definidas as funções de modelagem, complementação de desenhos, compatibilização, gestão da informação, coordenação geral do modelo, customização, desenvolvedor de bibliotecas e controle de dados. O próximo capítulo, “Reestruturação do parque informático”, aborda os três aspectos fundamentais do problema: software, hardware e redes. O capítulo “Treinamento da equipe” mostra a importância do trabalho na área de recursos humanos destacando como sub-itens o conteúdo de treinamento, organização das aulas, documentação, reciclagem de conhecimento e suporte. O capítulo “Fluxo de trabalho em BIM” destaca a importância da organização dos processos de trabalho e elenca os seguintes aspectos: bibliotecas, templates, nomenclatura e estruturação de pastas. O fascículo conclui com o tema “Produtos”, onde são relacionados alguns tipos de entregáveis em BIM e documentos em 2D.

Sobre o Fascículo II

Segundo os autores, este fascículo procura mostrar que a implantação do BIM requer novos métodos de trabalho, novas posturas de relacionamento entre arquitetos, projetistas, consultores, contratantes e construtores.

No capítulo de “Introdução” é colocado o conceito de Plano de execução BIM de um projeto. São destacados os pontos básicos desse plano: descrever os objetivos de cada equipe e suas expectativas com a utilização desse processo; definir os usos aplicados aos modelos; identificar os requisitos dos projetos em BIM; definir as equipes; estabelecer os procedimentos de colaboração; desenhar o fluxograma e marcos das atividades com BIM; estabelecer os procedimentos de controle da qualidade do modelo; e definir quais e com qual grau de profundidade serão os produtos extraídos dos modelos BIM. O capítulo seguinte, “Objetivos e usos do BIM” repete com mais detalhamento o mesmo assunto já tratado no fascículo I.

O próximo capítulo, “Levantamento dos requisitos do projeto” tem por objetivo:

“….mostrar a importância do entendimento para todos os agentes envolvidos no projeto, do que deve ou não ser incluído no modelo, e quais informações podem ou não ser utilizadas.”

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Conceitos visuais de LOD

São introduzidos nesse capítulo os conceitos de LOD (level of development) e LOI (level of information) através de exemplos visuais.

O capítulo “Definição das equipes” chama a atenção para o momento atual de transição do CAD para o BIM e ressalta a ocorrência de muitos projetos híbridos, onde o BIM é utilizado parcialmente. Recomenda-se também a não adoção de modelos “terceirizados”. O uso do BIM atual nas demais disciplinas é comentado.

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Procedimentos de trabalho

O capítulo “Procedimentos de colaboração” é particularmente extenso. São tratados detalhadamente os tópicos de intercâmbio de informações e interoperabilidade; critérios para divisão de modelos; definição de padrões; espaço interativo de trabalho e controle de documentos e armazenamento

No capítulo “Mapeamento do processo e cronograma” é tratado um dos tópicos mais complexos sobre a Gestão do BIM em projetos:

“Muito embora os autores comentem que já é possível perceber que as fases tradicionais de projeto relacionadas ao processo CAD e como descritas na NBR 13531-95 não se adequam com facilidade aos fluxos e à necessidade de troca de informação em um processo BIM; o modelo adotado ainda segue o Manual de Escopo de Projetos e Serviços de Arquitetura e Urbanismo (Asbea-Secovi, Sindistalação, Sinduscon), bem como com a Norma Brasileira NBR 13531-95 – Elaboração de Projetos de Edificações – Atividades Técnicas, que descrevem as fases de projeto em vigor: estudo de viabilidade; estudo preliminar; anteprojeto; projeto legal; projeto básico; projeto executivo.”

O “Controle de qualidade dos modelos: análises durante o fluxo” apresenta de maneira geral os principais softwares de clash detection, fluxo de procedimentos para detecção e solução de problemas e faz uma proposta de esquema de cores para visualização dos modelos combinados. O Fascículo II conclui com o capítulo dos “Entregáveis”, mencionado como “Produtos” no Fascículo I, porém mais aprofundado tecnicamente. Faz uma conceituação importante ao diferenciar o Projeto dos seus Entregáveis ao cliente.

Análise

Os dois fascículos do Guia tem por objetivo a introdução de conceitos. O público-alvo das publicações é o profissional ou escritório que está começando a conhecer o BIM. Particularmente o Fascículo I faz uma abordagem introdutória ao tema, porém os comentários e definições carecem de um maior aprofundamento conceitual, visto que são destinados à profissionais e não a estudantes de graduação, como assim transparece. Os temas são relevantes, contudo ficam apenas na questão do “que fazer” e poderiam cumprir um melhor papel aos leitores recomendando “como fazer” a implementação do BIM, até porque isso é o esperado de um guia de práticas…
A definição do “que é o BIM” não é mencionada em nenhum momento, se passa diretamente para os seus usos, fato que causa estranheza, uma vez que para saber utilizar o BIM é fundamental o entendimento dos seus conceitos e definições. Poderiam ter sido utilizados conceitos de BIM de vários pesquisadores, como Eastman por exemplo. Em relação às funções dentro dos escritórios quer nos parecer ainda uma certa inexperiência no tema, pois ao serem criados inúmeros papéis, podemos chegar a uma divisão de trabalho, contrária aos princípios do BIM, e a criação de “especialistas”, visão da qual não compartilhamos. A definição de padrões internos do escritório, embora incompleta, está correta. Contudo é extremamente superficial e não leva para os leitores o “como fazer” de uma forma orientada e prática. Novamente o guia falha, ao “falar muito sobre”, porém explicar muito pouco sobre “o como” das boas práticas. Espera-se que um guia de boas práticas transfira de forma mais efetiva o know-how sobre o assunto.

No Fascículo II a introdução dos conceitos de LOD e LOI é feita de maneira apressada e com pouco aprofundamento técnico. As definições dos diferentes LODs são meramente visuais e subjetivas, nada é mencionado sobre as propriedades não-geométricas dos objetos (LOI). Teria sido útil também apresentar os sistemas de classificação da informação, notadamente o Uniformat e as OmniClass, uma vez que guardam relação direta com os níveis de granularidades referidos nos LOD/LOI.

Sobre o intercâmbio de informações e interoperabilidade são cometidos alguns deslizes que cabem ser revistos em uma próxima edição. Maior atenção precisa ser dada à Interoperabilidade, e a importância do formato IFC nas trocas entre softwares de diferentes fabricantes.  Jim Steel, Drogemuller e Toth (2012) consideram a interoperabilidade em quatro níveis:
1. Interoperabilidade no nível de arquivos: a habilidade de ferramentas de software em trocar de maneira bem-sucedida os seus arquivos;
2. Interoperabilidade no nível de sintaxe: a habilidade de ferramentas de software em analisar os modelos trocados sem a ocorrência de erros;
3. Interoperabilidade no nível de visualização: a habilidade de ferramentas de software em visualizar fielmente o modelo que está sendo trocado;
4. Interoperabilidade semântica: a habilidade de ferramentas de software em ter um entendimento comum do significado do modelo trocado. A interoperabilidade semântica é também entendida por O’Brien e Marakas (2005) como a capacidade de sistemas de software em interpretar a informação trocada automaticamente para produzir resultados que sejam considerados úteis para os usuários finais de ambos os sistemas.

Outro engano cometido foi mencionar nas três situações de intercâmbio de informação o seguinte:

“…idealmente, todos os envolvidos no processo BIM trabalhariam sobre um mesmo modelo depositado em um local virtual. Esse cenário ainda não é viável dada a nossa realidade de velocidade de conexões e capacidade de hardware.”

Simplesmente esse conceito de Modelo Único, como mencionado, não é verdadeiro em BIM. Trata-se de um conceito ultrapassado da época dos primórdios. Sabe-se que a indústria de softwares não faz qualquer esforço na direção de desenvolver produtos com essa capacidade.

A segunda situação comete mais um engano:

“…em um segundo cenário, mais tangível, ainda on-line, cada disciplina desenvolveria os próprios modelos, vinculados a um único modelo central integrado, todos depositados no mesmo local virtual. A essa organização chamamos de modelos federados. Esse cenário ainda depende de conexões com banda suficientemente larga que permita a transmissão de grande volume de dados”

O BIMServer da Graphisoft cumpre todas essas funções, sendo amplamente utilizado pelos usuários profissionais do Archicad e sem problemas de conexões de banda larga relatados. O vídeo a seguir demonstra o seu funcionamento e serve de argumento contrário à afirmação imprecisa mencionada no guia AsBEA.

Já em relação ao Controle de documentos e armazenamento, o guia simplesmente se omite ao afirmar:

“…Como em qualquer outro processo de projeto, o controle dos documentos, o armazenamento e o backup devem seguir procedimentos específicos…”

No mundo BIM armazenamos Modelos de Dados antes de tudo. Podemos citar, como exemplo, duas conhecidas soluções: o A360 da Autodesk, para formato proprietário, e o bimsync da Catenda, para formato IFC. Ambas são soluções eficazes e poderiam ter sido mencionadas. Talvez pelo desconhecimento a questão ficou em aberto. Esse fato pode levar o leitor a acreditar que as soluções existentes de repositórios comuns, tipo FTP, existentes no mercado, sejam soluções de armazenamento de modelo, quando na verdade servem apenas para arquivamento de desenhos (e não de modelos) em formatos dwg, pdf entre outros.

Finalizando, a questão da Checagem de Interferências aborda o problema de forma correta. Entretanto, o fluxograma do processo de compatibilização ainda se baseia no processo convencional: emissão de relatórios e reuniões presenciais de compatibilização. O advento do formato BCF (BIM Colaboration Format) veio trazer agilidade e dinâmica ao processo moroso mencionado no guia. Com o BCF não existem mais relatórios, uma vez que a comunicação de problemas é feita diretamente entre os softwares. Da mesma forma o rastreamento das soluções é feito de maneira automática. O guia peca ao se manter desatualizado em relação aos avanços da tecnologia nesse caso. Ao propor um guia de cores para identificação de especialidades no modelo combinado (modelo de coordenação) o guia particulariza, pois o exemplo adotado é válido basicamente para o Navisworks, o que demonstra uma forte tendência dos profissionais em preferir a solução da Autodesk. Contudo, exemplos utilizando o Solibri Model Checker seriam comparativamente melhores, uma vez tratar-se do melhor analisador de modelos da atualidade.

Conclusão

O BIM ainda é muito novo no Brasil. Padrões de trabalho são altamente desejáveis para o desenvolvimento da comunidade técnica. O esforço dos profissionais da AsBEA, envolvidos na elaboração do guia é altamente louvável, pois sabemos do esforço e dedicação para realizar esse trabalho de maneira voluntária e nas poucas horas de tempo disponíveis de todos. Porém, no panorama mundial, o Brasil continua ainda muito aquém dos países desenvolvidos em termos da produção de Guias e Manuais. Segundo levantamento feito no site da buildingSmart, existem atualmente mais de oitenta guias, manuais ou frameworks para o uso do BIM. A leitura desses guias e manuais mostra que muito trabalho bom já foi feito nesse sentido. Caberia à AsBEA, na continuidade dos seus esforços, fazer uma revisão bibliográfica profunda da cultura existente, visando acelerar o processo, ao invés de mantê-lo restrito às nossas práticas ainda primitivas. Seria recomendável também que a AsBEA se aproxime dos Consultores e Pesquisadores acadêmicos e da indústria e que já dominam amplamente esse conhecimento hoje no Brasil. Uma perspectiva mais ampla, ao nível setorial e envolvendo as demais associações de profissionais é altamente desejável e o pioneirismo da AsBEA mostra que muito ainda precisa ser feito.

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