Home Artigos BIM: Integração de processos, tecnologia da informação e colaboração

BIM: Integração de processos, tecnologia da informação e colaboração

As empresas investem recursos implantando novas tecnologias, sem necessariamente compreender as mudanças que elas trarão na sua adoção

Os edifícios são estruturas complexas resultantes de um longo processo de projeto, planejamento e construção. As equipes de projeto multidisciplinares envolvem a participação de variados agentes, em uma associação temporária, com diferentes habilidades, estruturas de trabalho e necessidades de informação diversas.

Melhado (1994) aponta para a complexidade crescente das edificações, fator que vem exigindo um número cada vez maior de projetistas e consultores, ficando claro que a evolução do setor de construção de edifícios deve produzir novas situações sócias técnicas que possibilitem o trabalho colaborativo, pois as práticas convencionais de trabalho, pouco colaborativas, não conseguem responder adequadamente às demandas do mercado.

Trabalhar de forma colaborativa levaria profissionais e empresas a obter melhores resultados, interna e externamente ao ambiente das empresas. Entretanto, ainda é um desafio para todos obter a efetiva colaboração, conforme Akintoye e McIntosh (2000).

Conforme Owen (2009), as tecnologias existem para sustentar os processos, os quais sustentarão à criação e manutenção de informações coerentes e relevantes, e estas, por sua vez, sustentarão à colaboração das pessoas envolvidas em um mesmo projeto; ver ilustração desse ciclo na Figura 1.

colaboração

A colaboração é um dos temas centrais no estudo da melhoria do processo de projeto; porém, é importante identificar com maior precisão o significado desse conceito. Kvan (2000); Vreede e Briggs (2005) comparam os conceitos de cooperação, do latim cooperare (trabalhar com outros), e de colaboração, do latim colaborare (trabalhar de comum acordo), e entendem que a principal distinção entre essas palavras é que na colaboração o aspecto criativo e holístico do trabalho é uma demanda difícil de ser estabelecida e mantida, e requer mais do que simplesmente trabalhar de maneira cooperativa, como fazem as formigas e abelhas.

O termo “cooperação” foi inicialmente utilizado por economistas na primeira metade  do século XIX, e Karl Marx (1890) formalizou o seu conceito como “múltiplos indivíduos trabalhando juntos de forma planejada ou no mesmo processo de produção ou em processos de produção conectados […]”.

A colaboração requer maior comprometimento que a cooperação para o alcance de um objetivo comum, pois implica aumento de riscos, exigindo um nível maior de confiança entre os participantes dos grupos envolvidos. Kalay (1998) define colaboração como um acordo entre os agentes envolvidos para compartilhar suas habilidades em um processo em particular e atingir os objetivos do projeto como um todo.

Segundo Leicht (2009), existem três elementos que definem colaboração:

  1. A colaboração é um processo;
  2. A colaboração envolve a interação de duas ou mais pessoas;
  3. As pessoas precisam trabalhar juntas em direção a um objetivo

Assim como em outros países, no Brasil são identificadas necessidades de ampla reformulação. A tecnologia do Building Information Modeling (BIM) e o trabalho colaborativo têm sido considerados o estágio superior a ser alcançado nessa linha de  evolução. Porém, é necessário estudar o trabalho colaborativo levando em  consideração quatro recursos-chave: pessoas, processos, tecnologia e dados.

Para uma definição precisa dos problemas a serem resolvidos, devemos começar pela compreensão dos gargalos ainda não solucionados no processo de projeto, que devem ser superados por meio de novas tecnologias ou processos de gestão e da avaliação do impacto relacionado a problemas causados pelo fator humano, constantemente presente no processo.

A partir da experiência do autor em coordenação de projetos relacionamos, conforme a Tabela 1, alguns itens detectados como obstáculos relacionados à gestão dos projetos particularmente oriundos dos profissionais de projeto.

Tabela 1: Obstáculos Inerentes à Gestão do Processo de Projeto
Processo fragmentado e sequencial
Planejamento com método inadequado: controle de entregas e não de processos
Resistência ao trabalho colaborativo
Heterogeneidade dos conflitos envolvendo a equipe de projetos
Pouca relevância ao desempenho da construção
Pouca integração entre os agentes envolvidos
Falta de comunicação
Resistência ao planejamento
Resistência ao uso de TI
Falta de controle de qualidade do processo
A coordenação de projetos é confundida com a compatibilização dos projetos
Diferentes objetivos e valores para cada um dos agentes envolvidos
Processo desestruturado de trabalho
TI vista como um custo, não como investimento.
Falhas na gestão da empresa de projetos

 Aspectos do trabalho cooperativo suportado por computador

O “trabalho cooperativo suportado por computador”, mais conhecido por seu acrônimo em inglês: Computer Supported Cooperative Work (CSCW), foi o termo criado em 1988 por Greif (1988) como forma abreviada de se referir a uma linha de pesquisa sobre como suportar múltiplos agentes trabalhando em conjunto em sistemas computacionais.

As pesquisas sobre o tema se desenvolvem a partir de dois pontos de vista: o primeiro centrado em tecnologia, que procura desenvolver tecnologias para melhor suportar as pessoas trabalhando juntas; o segundo centrado no trabalho, com ênfase no entendimento dos processos de trabalho e, a partir deles, na melhoria dos desenhos de sistemas segundo Mills (2003).

Encontram-se referências nas linhas de pesquisa centradas no processo de trabalho em Anumba et al. (2002); que descrevem maneiras de colaboração baseadas em uma classificação de espaço e tempo na Tabela 2.

colaboração

 

Em trabalhos semiestruturados, como é o caso do projeto, as tarefas contemplam também a incerteza e a interatividade, tornando difícil o seu planejamento, conforme Manzione (2006) e Melhado (2004) transformando o processo de coordenação num esforço contínuo de negociações e renegociações entre os agentes envolvidos.

A complexidade e o processo criativo envolvidos na elaboração de um projeto vão de  encontro à visão comumente aceita em muitas organizações burocráticas tradicionais, nas quais as pessoas executam suas atividades de acordo com um conjunto de “procedimentos” bem  especificados  e  desenvolvidos  pela  administração  central  como  meios  eficientes e eficazes para atingir determinados fins.

Nesse modelo tradicional, arraigado na Arquitetura, Engenharia e Construção (AEC), muitas suposições são feitas sobre uma base racional para a ação, visando atender aos objetivos comuns dos funcionários e da organização. De acordo com essa visão, o organograma tradicional indica as linhas de autoridade real e especifica o padrão “correto” do fluxo de informação e comunicação, segundo Bannon e Schmidt (1989).

Sistemas computacionais que procuram atender rigidamente a esses padrões tendem a falhar por não levar em conta a informalidade e as relações sociais que se estabelecem dentro das empresas e que são invisíveis à luz do organograma formal. As interações informais que ocorrem no ambiente das empresas têm uma função vital na condução do trabalho rotineiro e na condução dos processos, e a importância disso precisa ser mais bem considerada no estudo da melhoria dos processos colaborativos.

Quando as pessoas trabalham somente “dentro das regras”, os resultados são medíocres e a lentidão impera.

O que isso implica no desenvolvimento de sistemas?

Sistemas cujo objetivo é apenas a organização de um fluxo de trabalho − como é o caso de sistemas de fluxos de trabalho, que negligenciam a coordenação necessária para tornar esse fluxo de trabalho possível − podem simplesmente falhar, conforme Bannon e Schmidt (1989) e Mills (2003).

O desenvolvimento de um espaço de informação compartilhada, outro problema central do CSCW, é fortemente influenciado pela intensidade das relações de trabalho colaborativo, pois pode requerer a interação de pessoas com objetivos e estruturas conceituais de decisão diversos, dando origem a problemas de controle de situações simultâneas em aplicações que envolvam múltiplos usuários.

Por esse motivo, um espaço de informação e decisão compartilhada precisa ser transparente, o que implica a necessidade de pesquisas mais aprofundadas sobre autoria, propriedade, identificação da origem e das estratégias adotadas na produção das informações nele contidas, bem como sobre a responsabilidade envolvida em sua disseminação.

De acordo com Ciborra (1985), a noção de que as organizações devam ser entidades monolíticas, podendo ser unificadas simplesmente através de um modelo de dados, é um tanto ingênua, do mesmo modo que a ideia de um banco de dados transparente não parece ser totalmente realista quando se consideram os fatores de natureza humana.

Ao invés disso, e em contraposição com a visão cartesiana tradicional, parece mais realista acreditar que uma organização seja uma mistura dinâmica de colaboração e conflito, de transparência e ocultamento contínuos. As informações geradas e processadas nas empresas estão sujeitas a deturpação, porque podem ter sido geradas e comunicadas em um contexto de incongruência de objetivos e desacordo de motivos e interesses.

Por outro lado, a necessidade de transparência é amplificada por essa contradição; logo, a transparência precisa ser mais bem delimitada.

Um funcionário engajado num processo de decisão cooperativa precisa ser hábil para controlar a disseminação da informação pertinente ao seu trabalho: o que é para ser revelado, quando, para quem e de que forma deve ser revelado.

Outro ponto central do CSCW é a adaptação recíproca entre a tecnologia e a organização. Compreender as complexas interações que ocorrem entre os subsistemas técnicos e a organização do trabalho requer uma abordagem sociotécnica como parte do estudo da superação de barreiras necessárias para a implantação e melhoria de sistemas de trabalho colaborativos. Bannon e Schmidt (1989) levantam alguns pontos de referência a serem considerados nessa análise:

  1. Os privilégios e prejuízos na alocação das tarefas;
  2. As formas institucionais de expressar e regular os conflitos de interesses;
  3. As formas de controle social no ambiente de trabalho;
  4. O impacto da função da empresa no sistema socioeconômico.

Essas realidades da vida organizacional, de acordo com Bannon e Schmidt (1989), precisam ser seriamente investigadas; e ignorar essa realidade de diferenciação de estratégias e de incongruência de estruturas conceituais reduz o problema apenas à natureza técnica dos sistemas multiusuários, ou seja, apenas a uma abordagem orientada pela tecnologia para o problema, com suas concomitantes aproximações e limitações.

Bibliografia

AKINTOYE, A.; MCINTOSH, G. A survey of supply chain collaboration and management in the UK construction industry. E uropean Journal of Purchasing & Supply Management, v.6, p.159-168, 2000.

ANUMBA, C., et al. Collaborative design of structures using intelligent agents. Automation in Construction, v.11, n.1, p.89-103, 2002.

CIBORRA, C.; LANZARA, G.F. (orgs.) 1985. Progettazione delle Tecnologie e Qualita del Lavoro. Franco Angeli Editore, Milão. 330 pp.

GREIF, I. CSCW: What does it mean? In: Conference on Computer-Supported Cooperative Work., 1988, Portland, Oregon. Proceedings. 1988.

KALAY, Y. P3: Computational environment to support design collaboration. Automation in Construction, v.8, n.1, p.37-48, 1998

KVAN, T. Collaborative design: what is it? A utomation in Construction, v.9, n.4, p.409- 415, 2000.

LEICHT, R. M. A framewor k for planning effective collaboration using interactive workspaces. 2009. 277 p. Tese (Doutorado) – The Pennsylvania State University, 2009.

MARX, K. O Capital. 4. Editora Civilização Brasileira S.A., 1890, 579 p.

MELHADO, SILVIO BURRATTINO Qualidade do projeto na construção de edifícios: aplicação ao caso das empresas de incorporação e construção. São Paulo, 1994. 294 p. Tese (Doutorado) – Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Departamento de Engenharia de Construção Civil.

MILLS, K. L. Computer-Supported cooperative wor k. 2003, p. 666-677

OWEN, R. CIB White Paper on ID DS Integrated Design and Delivery Solutions. Rotterdam: CIB, 2009, 14 p.

VREEDE, G.; BRIGGS, R. O. Collaboration Engineering: Designing Repeatable Processes for High-Value Collaborative Tasks. In: Proceedings of the 38th Annual Hawaii International Conference on System Sciences (HICSS’05), 2005, Hawaii. Proceedings. 2005. 17 p.

Sobre o autor

Leonardo Manzione – Engenheiro com Mestrado pela Escola Politécnica da USP (2006) e Doutorado em BIM também pela Poli-USP. Ao longo de seus 38 anos de experiência profissional em engenharia civil, foi diretor de várias construtoras. Elaborou as especificações técnicas em IFC do Caderno BIM de Santa Catarina (primeiro BIM Mandate do Brasil publicado por um órgão público). É membro do grupo internacional de pesquisas “Building SMART Regulatory Interoperability Working Group” – que tem por objetivo desenvolver recomendações sobre as metodologias existentes para os aspectos regulatórios de edifícios – e do Comitê ABNT CEE/134, responsável pela elaboração da Norma BIM. Tem experiência comprovada em implantação de BIM como consultor de empresa e é pesquisador internacional com diversos artigos sobre BIM publicados em seminários internacionais, além de entrevistas e artigos publicados em revistas técnicas.

Carregar mais artigos relacionados
Load More In Artigos
Comments are closed.

Leia também

Implantação do BIM: uma visão prática

Como implantar o BIM na prática? Essa tem sido uma questão fundamental nos dias de hoje. B…