Home Artigos O BIM Manager é realmente necessário?

O BIM Manager é realmente necessário?

Quais são as funções do BIM Manager?

Os requisitos de implantação e gestão do BIM vêm demandando novas habilidades específicas dos profissionais, e, por isso, têm surgido no mercado novos especialistas, destacando-se entre eles o gerente de BIM ou BIM Manager, como é mais conhecido no jargão.

Segundo Barison e Santos (2010), as empresas necessitam de um novo profissional que seja responsável pela coordenação que o contexto do BIM requer; afirmam os autores que a função principal desse novo profissional é gerenciar as pessoas na implementação ou na manutenção do processo de projeto em BIM.

A definição de suas autoridades e responsabilidades é bastante extensa e, de acordo com o Building and Construction Authority (2012), elas são genericamente resumidas nos seguintes termos:

  1. Estabelecer e acordar um plano de execução BIM, garantindo o seu cumprimento e melhoria contínua, e também praticar todas e quaisquer responsabilidades ou funções, conforme exigidas no Plano de Execução BIM;
  2. Criar, apagar, modificar e manter os direitos de acesso adequados para os usuários, para evitar perda de dados ou danos durante a troca de arquivos, manutenção e arquivamento;
  3. Definir o ponto de origem do modelo, sistema de coordenadas e unidades de medida;
  4. Definir o nome do modelo;
  5. Facilitar a coordenação do modelo promovendo reuniões, incluindo análises de interferências e emissão de relatórios periódicos de compatibilização;
  6. Dar a solução para o armazenamento do modelo;
  7. Controlar a nomenclatura das versões do modelo;
  8. Controlar os direitos de acesso dos usuários;
  9. Agregar o modelo, tornando-o disponível para visualização;
  10. Receber novos modelos, coordenar a troca de modelos, validar os arquivos, liberando-os para os demais projetistas, em acordo com os protocolos aplicáveis do plano de execução do BIM, mantendo uma cópia de segurança de cada arquivo recebido;
  11. Tomar as precauções necessárias para garantir que não ocorram problemas de interoperabilidade, providenciando, para isso, os requisitos necessários de hardware, software, licenças, formato de arquivos e necessidades de espaços de trabalho colaborativos;
  12. Determinar as convenções a serem seguidas para o processo de revisão dos modelos BIM;
  13. Estabelecer um protocolo de segurança de dados para prevenir a ocorrência de dados corrompidos, vírus, mau uso de dados ou danos deliberados pelos membros da equipe de projetos e outros;
  14. Responsabilidade pelos backups regulares dos dados dos servidores de modelo;
  15. Processamento de rotinas para garantir a segurança do modelo de dados;
  16. Atualizar os aplicativos para impedir vulnerabilidades documentadas pelos fabricantes de software no modelo;
  17. Estabelecer e manter a proteção de dados através de mecanismos de encriptação de dados;
  18. Documentar e relatar qualquer incidente relacionado com o modelo;
  19. Transferir incondicionalmente para o seu eventual sucessor todas as informações necessárias para a continuidade do trabalho.

Gallello (2008) acrescenta às habilidades do gerente de BIM a capacidade de pensamento não linear e de visão multidisciplinar e também o entendimento dos fluxos de trabalho do processo de projeto e conhecimentos sobre sua gestão.

O escopo de sua atuação é estabelecido considerando o papel que esse agente pode assumir. Assim, o Building and Construction Authority (2012) determina diferentes responsabilidades para o gerente de BIM levando em conta três contextos distintos: o contexto do processo de projeto, o contexto da empresa de projeto e o âmbito da construtora e do empreendedor.

Barison e Santos (2010) fazem raciocínio semelhante e relacionam algumas de suas responsabilidades. No trabalho em empresas de projeto, o BIM Manager será responsável pela implementação do BIM, pela coordenação das equipes de projeto, estabelecendo a conexão necessária entre os diversos escritórios.

Suas funções incluem também organizar os treinamentos e se manter informado sobre as novas atualizações de software, assumindo ainda a responsabilidade pela difusão dos conceitos BIM na organização e no mercado e com isso exercendo um papel estratégico no processo.

Contudo, os autores enfatizam a importância da existência de um plano de implementação do BIM como requisito para embasar o processo na empresa e colocam a responsabilidade em manter e implementar o plano como uma de suas funções precípuas, examinando e avaliando as metas do processo em BIM, e desenvolvendo um plano que atenda às demandas dos clientes, levando em conta a experiência da equipe de projeto e a disponibilidade de recursos.

Dentro da revisão dos “especialistas em BIM”, elaborada por Barison e Santos (2010), é relacionada ainda uma nova série de profissionais BIM, classificados segundo suas atribuições como: modelador, analista, desenvolvedor de aplicações, especialistas em modelagem, facilitadores, consultores, pesquisadores. Os autores concluem ressaltando a importância de mais pesquisas que investiguem a participação de todos esses especialistas a partir de uma abordagem organizacional, de modo a detectar quais conhecimentos e competências precisam ser criados para que uma organização obtenha vantagens competitivas.

Reflexões sobre a necessidade da existência do BIM Manager

O estudo deste tema mostra pontos de grande relevância; um deles é a importância da gestão do processo de projeto, que, independentemente do suporte tecnológico a ser dado, precisa continuar existindo. Outro ponto ressaltado é o advento do BIM trazendo radicais transformações para o processo de trabalho tradicional e incorporando novas necessidades técnicas e organizacionais.

A abordagem advinda dos profissionais especializados em TI tem sido a da especialização, desde um nível superior – gerente de BIM – até um nível inferior na cadeia de produção – o modelador de BIM –, o que nos leva a questionar se essa forma de visão focada na especialização de funções e na divisão do trabalho não tende a conduzir o processo de projeto a uma linha cada vez mais fordista e taylorista − filosofias que se caracterizam pela ênfase nas tarefas, cada vez mais atomizadas, com o objetivo de aumentar a eficiência em nível operacional.

Não seria esta uma forma de conceber os sistemas como simples agregados mecanicistas de partes em relações causais separadas umas das outras, resultando em uma concepção de causalidade linear unidirecional?

O pressuposto implícito nesse raciocínio é o da simplicidade, concepção segundo a qual é necessário separar as partes para entender o todo. Ou seja, separar o mundo complexo em partes para se chegar à compreensão do todo através da detecção de seus elementos simples. Daí a compartimentação do saber, que fragmenta o conhecimento em diferentes disciplinas.

Dessa forma criam-se os especialistas, aqueles que têm um acesso privilegiado ao conhecimento, estabelecendo-se uma hierarquia do saber.

A concepção do BIM, por sua vez, defende uma visão holística do edifício em todo o seu ciclo de vida, e termos como “integração” e “colaboração” são correntes em sua literatura, o que torna essa concepção mais coerente com a escola de pensamento sistêmico de Ludwig von Bertalanffy.

Bertalanffy (1975) define a Teoria Geral dos Sistemas como o método que procura entender o funcionamento dos sistemas, com o objetivo de classificá-los conforme seus componentes se organizam, de modo a identificar as “leis” ou os padrões característicos de comportamento de cada categoria de sistemas.

Um de seus princípios é a interdependência das partes: o todo é constituído de partes interdependentes, e, segundo o autor:

A tecnologia e a sociedade hoje se tornaram tão complexas que as soluções tradicionais já não são suficientes. É necessário utilizar abordagens de natureza holística ou sistêmica, generalistas ou interdisciplinares. Ou seja, os sistemas devem ser estudados como entidades e não como um ajuntamento de partes distintas. Bertalanffy (1975)

Seriam necessários mais profissionais ou precisaria melhorar a qualificação dos atuais, agregando a eles mais competências? As divisões de funções pressupõem também uma divisão entre os campos da gestão e do projeto e o campo da tecnologia, o que pode levar a hierarquias baseadas no saber, resultando em silos de conhecimento, problemas de comando e tomadas de decisão, relações de subordinação e burocracia dentro das empresas.

Por outro lado, a carga de conhecimentos e habilidades requeridas, relacionadas tanto para o coordenador de projetos quanto para o gerente de BIM, mostra que um profissional que reúna sozinho a maior parte dessas competências é praticamente inexistente no mercado e sua formação plena iria requerer muitos anos de prática e de estudos aprofundados.

O mercado vive atualmente uma fase de transição e de início de implantação de uma nova tecnologia e novos processos.

Tome-se como exemplo a implantação de sistemas de gestão ERP, na prática existe um período que pode ser razoavelmente longo que requer a presença na empresa de técnicos especializados que irão treinar a equipe no uso do software e irão customizá-lo para atender às necessidades específicas da empresa. Findo esse período a empresa de maneira autônoma continua conduzindo os seus processos e utiliza eventualmente de suporte técnico para esclarecimento de detalhes ou para a configuração de novas versões do software.

Entendemos que com o BIM o processo seja semelhante. Porém, achamos que a demanda maior seja de natureza processual, devendo ser feita uma reestruturação dos processos de trabalho em função da tecnologia a ser implantada. Essa tecnologia, por sua vez, deve também ser pensada de modo a buscar, dentro dos limites possíveis, sintonia com os processos.

Conclusões

A figura de um gerente de BIM, em nosso entendimento, é dispensável em uma visão de longo prazo, pois, se analisarmos a descrição de suas funções − feita a partir da revisão bibliográfica −, iremos constatar que muitas delas, são superpostas às funções do coordenador de projetos, como, por exemplo: promover reuniões entre a equipe de projeto; emissão de relatórios periódicos de compatibilização; coordenar a troca de modelos; validar os arquivos, liberando-os para os demais projetistas; definir o ponto de origem do modelo, sistema de coordenadas e unidades de medida; capacidade de pensamento não linear e de visão multidisciplinar e também o entendimento dos fluxos de trabalho do processo de projeto e conhecimentos sobre sua gestão.

Portanto, entendemos ser necessário melhorar a capacitação desse profissional de coordenação de projetos, que atualmente é deficiente, sendo talvez esse fator que cause a necessidade de um profissional “salvador da pátria” − saída que nos parece incorreta por postergar a solução do problema.

Acreditamos, em uma perspectiva de longo prazo, que a melhoria da capacitação seja a solução mais correta, e a agregação de especialistas em determinadas funções requeridas pelo BIM, como preparação de famílias e outras de natureza meramente tecnológica, seja acessória, podendo ser complementada por profissionais subordinados ao coordenador de projetos.

Clique aqui para aprender como se faz a Gestão do Processo de Projetos

Sobre o autor

Leonardo Manzione é o fundador da COORDENAR e editor desse blog. Mestre e Doutor em Engenharia pela Escola Politécnica da USP, e especializado em consultoria BIM. Ele pode ser contatado através desse site clicando aqui.

Carregar mais artigos relacionados
Load More In Artigos
Comments are closed.

Leia também

Workshop de SOLIBRI

A Associação para o Desenvolvimento e Promoção do BIM no Estado de Pernambuco (ABIM-PE) es…