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Barreiras culturais para a adoção do BIM no Brasil

Existem diversas barreiras para a plena adoção do BIM. Elas ocorrem tanto no Brasil quanto no mundo em escalas e padrões diferentes. A barreira cultural a meu entender é uma das mais difíceis a serem transpostas durante o processo de implementação do BIM. Como consultor BIM de empresas, considero esse o meu maior desafio.

Old habits die hard” é o dito americano que constato no dia a dia da consultoria BIM.

O manual da CBIC é uma obra pioneira e aborda esse tema específico. O autor, Eng. Wilton Catelani, é um dos profissionais mais competentes na área e escreveu a esse respeito no manual.

Reproduzo a seguir, com os devidos créditos, um trecho do manual onde Catelani elabora uma boa síntese das barreiras culturais para a adoção do BIM no Brasil.

Fonte: Implementação BIM – Parte 2: Implementação do BIM para Construtoras e Incorporadoras/ Câmara Brasileira da Indústria da Construção.- Brasília: CBIC, 2016.

Autor: Eng. Wilton Catelani

Barreiras culturais ou particularidades do ambiente e do mercado brasileiro podem ser apontadas como dificultadoras da adoção do BIM:

  • Não costumamos valorizar o planejamento nos nossos empreendimentos construtivos.
  • Ainda não temos um número de profissionais suficientemente capacitados em BIM no nosso mercado.
  • Ainda acreditamos e apostamos em soluções ‘rápidas e baratas’.
  • O atual modelo de contratação de projetistas utilizado no Brasil: os maiores beneficiados pela adoção BIM são os contratantes, que respondem pelo produto final construído perante os clientes, mas o BIM precisa ser aplicado ainda na fase do desenvolvimento dos projetos.  Sem isso não existe BIM. Para os arquitetos e projetistas, entretanto, a exigência do BIM acaba representando, além da necessidade de investimento e capacitação, um aumento substancial de escopo e responsabilidades, sem que sua remuneração seja adequadamente revista em conformidade ao novo escopo ampliado.
  • Nem todos que atuam na indústria da construção civil no Brasil se interessam verdadeiramente por processos mais eficazes e transparentes. Muitos se valem da indefinição de projetos para tirar proveito dela.
  • As margens de lucro dos empreendimentos da construção civil no Brasil ainda são relativamente altas (comparadas com mercados mais maduros) e os erros e desperdícios, mesmo grandes, já estão incorporados aos orçamentos e, historicamente, acabaram aceitos pela indústria.
  • O investimento para viabilizar a implementação BIM é desproporcional aos atuais valores de remuneração dos projetistas, especialmente na área de instalações (os projetos de instalações são sub-remunerados).
  • Em geral, não há interesse pelo trabalho colaborativo – cada um se preocupa só com sua parte.
  • Não temos incorporada, na cultura da indústria da construção civil, a utilização da Tecnologia da Informação (TI).
  • Algumas pessoas são céticas e pensam que BIM pode ser um ‘modismo’ passageiro.
  • Os modelos educacionais da maioria das universidades brasileiras constituem barreiras à disseminação da tecnologia BIM. As mudanças nas grades curriculares são difíceis, exigem processos longos, e os professores, de modo geral, não são estimulados às inovações.
  • Há personagens no mercado que denigrem iniciativas inovadoras.
  • O risco de perder profissionais após o investimento e o esforço do treinamento e da capacitação.

Também é preciso considerar que não temos conseguido coordenar adequadamente nossos esforços para o fomento da adoção BIM e a remoção de barreiras.

São inúmeras as iniciativas que não são complementares, mas sim concorrentes.

CONFEA, CREA e CAU devem participar mais ativamente das iniciativas existentes.

Não temos ainda documentos definidores de boas práticas que auxiliem nos processos de seleção, contratação e gerenciamento do projeto e empreendimento utilizando BIM. Além disso, não há bibliotecas de componentes BIM que correspondam aos produtos produzidos e utilizados na indústria brasileira.

Uma questão interessante, que deveria ser melhor investigada, tem a ver com um possível conflito de gerações. Como se sente um engenheiro com muitos anos de experiência e uma carreira de sucesso quando outro profissional, geralmente mais jovem, lhe apresenta uma ‘nova tecnologia’ e mostra que será capaz de fazer melhor tudo o que ele sempre fez, utilizando a tecnologia CAD?

Considere, ainda, que esse profissional mais experiente certamente estará encarregado de tomar as decisões ou de minimamente influenciá-las dentro das organizações.

Também se costuma dizer que a utilização do BIM acaba expondo mais explicitamente os eventuais erros cometidos pelos arquitetos e projetistas, que não são tão visíveis assim com a utilização da tecnologia 2D.

O momento de crise, estagnação e incertezas na economia brasileira tem inibido iniciativas de inovação nas empresas, e esse também é um fator que precisa ser considerado no entendimento da questão principal desse artigo

Sobre o autor

O engenheiro Wilton Catelani, é mestrando pela Universidade de São Paulo, Consultor BIM para a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) e Coordenador da CEE-134 da ABNT (norma BIM).

 

 

 

 

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