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Porque as implementações BIM no Brasil falham?

Recentemente puliquei um tópico no Linkedin: “hoje no mercado temos mais consultores BIM do que usuários”. Obtive inúmeros comentários e decidi resgatar um excelente artigo do Prof. Eduardo Toledo da Poli.

Eu concordo com tudo que o Prof. Toledo comenta e acrescento que grande parte do problema se deve ao surgimento das “empresas de modelagem” (!?)

Afinal o que elas fazem? Vendem um modelo BIM e o cliente acredita que com isso ele “possui o conhecimento BIM”! Sem discordar das competências técnicas dessas empresas no uso dos softwares, entendo que elas prestam um “desserviço” ao mercado, uma vez que se auto-intitulam de “consultorias BIM”.

Em muitos casos estas empresas estão ligadas a revendas de fabricantes de softwares e descobriram um filão a ser explorado, dada a relativa falta de capacitação dos projetistas. Além disso, o modelo de comercialização de softwares via assinaturas em cloud, praticamente estrangulou os resultados das revendas, levando-as a invadir e degenerar o mercado dos profissionais de projeto.

Na minha opinião as “empresas de modelagem” são um “sub-business” que vem diminuindo gradativamente conforme a capacitação dos profissionais de projeto avançam.

Até lá, muito estrago já terá sido feito no mercado e muitas implementações BIM naufragarão.

O BIM cresce a passos largos no Brasil: vários seminários, lançamento de manuais, editais, etc., porém o conceito de BIM como processo não foi completamente assimilado pelos empresários do setor da construção, afirma Eduardo Toledo Santos em artigo da Revista Estrutura, da ABECE.

Como principais fatores, o Prof. Toledo enumera:

Desconhecimento de BIM como processo, uso equivocado do projeto piloto, falta de capacitação da empresa e dos consultores, falta de planejamento estratégico, compra antecipada de softwares e entendimento que BIM = software, falta de neutralidade dos consultores (normalmente revendas ligadas a grandes marcas).

Leia a seguir um trecho da matéria do Prof. Eduardo Toledo Santos, publicada na Revista Estrutura, da ABECE.

Prof. Eduardo Toledo Santos da Poli USP

O conceito de BIM como processo ainda não foi completamente assimilado pelos empresários do setor da construção.

Com frequência ainda alta, depara-se com casos falhos de implantação de BIM.

O prognóstico de fracasso, na maioria destes casos, é evidente para os iniciados, mas certamente não era para aqueles que investiram tempo e recursos significativos na expectativa de obter o salto qualitativo em seus resultados prometido pelo BIM.

Para esses, o prejuízo é duplo, já que BIM mal feito é muito pior que CAD mal feito: é mais caro : altos custos em novo software, em hardware mais potente, em novo treinamento e consultoria , modelagem, bibliotecas, busca de informação, queda de produtividade pela mudança , e induz a mais erros – confiança em informações erradas, quantitativos errados, representações erradas, interferências não detectadas, etc.

Uma das armadilhas mais comuns é o  que os implantadores neófitos chamam  de “projeto piloto”, onde se desenvolve um modelo BIM “em paralelo” ao projeto convencional (2D).

Na verdade, neste caso, o modelo BIM vem sempre depois, atrasado em relação ao projeto 2D, pois os projetistas desenvolvem os projetos em CAD cujos documentos devem ser convertidos posteriormente para BIM (3D).

A correta acepção de “piloto” é “o primeiro de uma série”. Como esse processo pode ser considerado “piloto” de uma rotina futura, se BIM não se faz junto com o CAD, mas sim o substitui?

Este tipo de abordagem não agrega efetivamente nada para o cliente, via de regra, o modelo BIM deve ser desenvolvido diretamente pelo projetista, não convertido a partir de uma representação 2D. Por isso não serve para treinar equipes, nem aferir ganhos ou produtividade. Ao contrário, atrasa o empreendimento e aumenta seus custos e riscos.

Modelo BIM desatualizado na obra também traz resultados desastrosos, ou nem é usado. É comum as equipes saírem traumatizadas deste processo equivocado, com total descrença “nesse tal de BIM”, resistindo a novas tentativas de adotá-lo em empreendimentos futuros.

Usar essa estratégia para a equipe “aprender a modelar em BIM” também não se justifica, melhor usar um projeto anterior, já encerrado, que já até disponha de dados para se confrontar alguns resultados, sem atrapalhar o desenvolvimento de um projeto em execução.

Um verdadeiro “projeto piloto” pode sim ser desenvolvido com um empreendimento em andamento (escolhido criteriosamente), porém executado da mesma forma como se pretende que sejam todos os demais: com projetistas modelando diretamente em BIM e seguindo as diretrizes pré-estabelecidas num Plano de Execução BIM acordado por todos.

Sim, pode-se adotar com sucesso uma estratégia de treinamento da equipe durante o piloto (on-the-job training) especialmente com a aprendizagem just-in-time (p. ex., trabalho no projeto BIM pela manhã e treinamento com consultor/instrutor BIM na parte da tarde, onde as dúvidas da manhã são resolvidas na aula vespertina) que evita afastamento do trabalho e motiva e consolida a aprendizagem.

Neste caso, ao analisar métricas, é essencial considerar a natural queda de produtividade durante a fase de treinamento e de adaptação inicial aos novos processos e ferramentas.

Outro erro muito comum é a compra de software e treinamento antes de uma etapa de diagnóstico e planejamento estratégico. Isso geralmente ocorre quando se adota o próprio representante/fornecedor de software como consultor BIM.

A meta deste é vender seus próprios softwares e serviços, ligados a fabricantes pré-determinados. Com raras exceções, sua análise carece da isenção/neutralidade necessária neste momento preliminar.

As recomendações costumam não ser na direção do que é melhor para o cliente, que muitas vezes acaba por comprar aplicativos de que não necessita e desenvolver processos sem a visão estratégica ampla e de longo prazo (e alinhada com a missão da empresa) que o BIM requer.

Assim como a aquisição da última versão do melhor processador de texto não garante a escrita de um best seller, a simples compra dos melhores softwares BIM não assegura, por si só, resultados positivos com o BIM no empreendimento.

O planejamento, tanto da implantação dos novos processos ligados ao BIM na empresa, quanto da implementação do BIM num empreendimento específico  é essencial.

A forma correta de se fazer isso está bem documentada em diversos guias, nacionais e internacionais, e inúmeros estudos de caso de sucesso embasam esta estratégia. Em seu recentemente lançado Guia Nacional de BIM para Proprietários o NIBS destaca aos proprietários a necessidade de não exigir apenas BIM em suas obras, mas demandar o BIM BEM FEITO (“BIM DONE RIGHT”), se pretendem ter sucesso em sua aplicação no empreendimento.

A publicação destaca 3 áreas que o cliente deve entender para direcionar a equipe do empreendimento ao rumo certo: o processo, a infraestrutura e padrões, e a execução. Nada de novo, por que, em essência, é a mesma estratégia preconizada pelos principais guias de implementação de BIM disponíveis em todo o mundo, mas vale a pena repassar:

O processo: definição clara de requisitos de usos de BIM, no caso do proprietário, registrado nos contratos, incluindo responsabilidades pela modelagem das informações; infraestrutura e padrões: definição de ferramentas, tanto de autoria quanto de colaboração, bem como dos padrões (formatos, arquivos, bibliotecas, templates, documentação, modelagem, etc.) a serem adotados no empreendimento;

Execução: criação de um Plano de Execução BIM do Empreendimento (que inclui e detalha os dois itens anteriores) documentando, em comum acordo entre o proprietário e os demais participantes, o como, por quem, quando, por que, até que nível e quais informações no modelo serão usadas.

Apesar do processo de implementação de BIM ser muito bem definido, como mostrado acima, é essencial entender que o processo de execução do BIM em si é único para cada empreendimento assim como o de implantação em cada empresa.

As variações nas respostas às perguntas feitas no processo de implementação levam a diferentes processos BIM a serem efetivamente executados.

Isso traz uma implicação importante: não adianta esperar para ver o que dá certo e copiar o concorrente. O que funcionou para ele, provavelmente não funcionará para você (diferentes culturas, processos construtivos, tipologia de empreendimentos, porte, parceiros, maturidade, etc.).

Começar a trilhar o próprio caminho é a melhor maneira de auferir os benefícios do BIM. Para os que começam mais cedo, ele é fator de vantagem competitiva; para os retardatários, será fator de sobrevivência.

Outro aspecto do BIM é sua complexidade. Por abarcar potencialmente todos os profissionais em todas as fases do ciclo de vida da construção – da viabilidade à demolição, passando pelo projeto, planejamento, construção, operação e manutenção, o BIM é um processo complexo e de larga extensão.

Um estudo apontou mais de 70 usos diferentes para o BIM. A implantação “completa” do BIM demanda anos de desenvolvimento e maturidade em cada estágio.

Não há quem desenvolva internamente BIM 5D se ainda não dominou o 3D. Esta é outra razão para começar a caminhada na implantação de BIM o quanto antes.

Também é a razão por que é má ideia desestruturar equipes BIM em razão da crise, quando mais se precisa de eficiência e quando mais serão úteis na retomada dos negócios.

Planejamento e capacitação (seja na forma de cursos formais ou educação informal – leitura de publicações técnicas, frequência a palestras e seminários, participação em comunidades de prática, etc.), com o apoio de consultores especializados com comprovada experiência e preparação (neutros e isentos, na fase de planejamento estratégico e especializados nos processos e aplicativos específicos, na fase operacional) são ingredientes essenciais para a implantação correta do BIM.

Frente às várias definições para o BIM (processo, ferramenta, tecnologia, política, software, metodologia, …) a de processo é a que deixa mais clara a necessidade de implantação, de mudança, de capacitação, de ferramentas de suporte e de planejamento, por isso é nesta que sempre insistimos. Quem pensa em BIM como mera ferramenta começa errado e termina errado. O BIM que funciona é o BIM BEM FEITO.

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