Home Artigos Os fabricantes da AEC precisam acordar para o BIM!

Os fabricantes da AEC precisam acordar para o BIM!

O outro lado da crise brasileira é a excelente oportunidade da modernização da Construção Civil. Podemos dar um expressivo salto de produtividade se os líderes da indústria pararem para rever seus métodos e processos de trabalho. O advento do BIM vem trazer uma nova plataforma, aberta e colaborativa e que possibilita a integração da cadeia produtiva.

Nos últimos anos a implementação do BIM vem crescendo gradualmente no Brasil, contudo o ônus do desenvolvimento das bibliotecas, tem recaído nas costas do profissionais de projeto. Questiono se desenvolver bibliotecas é realmente a função de um profissional de projeto?

Entendo que esse papel seja da indústria de componentes da construção civil, é ela quem mais ganha com a construção e tem interesse potencial na especificação de seus produtos. Fiz uma ampla pesquisa nos sites dos fabricantes nacionais e pouquíssimos desenvolveram bibliotecas BIM para os profissionais de projeto e obra. Muitos fabricantes, tem rica documentação, porém apenas no formato pdf!

Nossa cadeia produtiva deve acordar para a integração de seus produtos e oferecer soluções em BIM que sejam integradas. Tomando como exemplo o Drywall, percebemos que a implantação dele no Brasil teve por objetivo a venda de placas e não de soluções que possam ser integradas com outros componentes. Conversando recentemente com o Ceotto ele me perguntou: “você conhece alguma papeleira que possa ser instalada em um drywall de banheiro”? A resposta é não, se a Knauf e a Deca, por exemplo, tivessem algum diálogo, poderiam oferecer soluções integradas. Não é função do arquiteto ou do construtor dar “jeitinhos” em obra ou projeto em componentes que não dialogam.

Pensando nisso, imagino que uma biblioteca BIM, como a bimobjects, possa ter no futuro, além de uma ampla gama de produtos nacionais, produtos que sejam realmente integrados em nível de solução e não apenas coleções isoladas de objetos.

Conversei com três importantes especialistas em BIM, dois são “feras” em projetos de sistemas, Humberto Farina, da In Prediais, e Fabio Pimenta, da Projetar. Falei também hoje por conference call com Stefan Larsson, CEO da BIMobjects.

As questões foram formuladas para Humberto, que será chamado de [HF] e Fabio [FP].  No caso do Stefan, dada as condições técnicas, achei por bem divulgar uma entrevista disponível no youtube, onde ele explica o bimobject e sua importância para a interoperabilidade e comunicação da AEC.

Nossos entrevistados

IN PREDIAIS

Eng. Humberto Farina  [HF]

Humberto Farina
Proprietário IN Prediais
Possui graduação em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (1996), mestre em Engenharia Civil pela mesma instituição (2001), com enfoque em Qualidade e Gestão de Projetos, pela sub-área de Engenharia de Sistemas Prediais.
Desde 2002 atua como professor convidado no programa de extensão e educação continuada da Escola Politécnica (USP), no FDTE e no Poli-Integra, com participação nos MBAs de Gerenciamento de Facilidades, Gestão de Projetos na Construção e Tecnologia a Produção de Edifícios.
Coordenador do Grupo de Trabalho de Componentes BIM para Sistemas Prediais Hidráulicos da Comissão Especial de Estudos sobre BIM (CEE-134) da ABNT.
Especialista em Sistemas Prediais, atuando nas áreas de projeto e de inovações em engenharia, entre elas na implantação do BIM – Building Information Modeling (Modelagem da Informação da Construção) na área de projetos.

PROJETAR
Eng. Fabio Pimenta

Fabio Pimenta
Engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP. Há 40 anos atua na área de projetos de obras hidráulicas e sistemas prediais e industriais. Fundador e sócio diretor da PROJETAR Projetos de Sistemas desde 1986, empresa de projetos de sistemas industriais e prediais. Fundador e ex-presidente da ABRASIP – Associação Brasileira de Engenharia de Sistemas Prediais. Tem sido atuante em diversas comissões da ABRASIP, ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas e em outras entidades do setor da construção civil.

STEDAN LARSSON
Stefan Larsson

Stefan Larsson é um líder de negócios e um evangelista de conteúdos digitais. Ele também é o fundador e CEO da BIMobject® Corporation, reconhecido por investidores com um prêmio Global Red Herring 100 e uma empresa pública no Nasdaq Stockholm First North: ticker BIM.

Durante seus 30 anos no negócio de TI internacional, Stefan Larsson construiu e gerenciou empresas de distribuição de software, empresas de eventos e empresas de desenvolvimento de jogos. Ele tem trabalhado como líder em empresas de médio porte internacionais com vendas de grandes contas, desenvolvimento de negócios e estratégias de marketing, sempre em cargos de liderança (CEO ou Diretor) ou de alto nível. Stefan começou a trabalhar com o BIM em 1987 e, portanto, é um verdadeiro pioneiro no campo da tecnologia BIM.

Stefan tem profundo conhecimento do processo de marketing e vendas e desenvolveu muitas ferramentas de vendas e programas de educação de vendas internamente em diferentes empresas. No campo técnico, ele tem experiência em áreas técnicas como programação, desenvolvimento de banco de dados, CAD, BIM, modelagem 3D, renderização e Realidade virtual.

 Leia a seguir as entrevistas desses especialistas

 

1. Em sua opinião, o fornecedores de MEP da indústria nacional tem evoluído no sentido de produzirem bibliotecas para os projetistas?

[HF]: Com exceção do pioneirismo da Tigre, percebo que o interesse em geral é da indústria que tem mais conexão ao mercado de Arquitetura, como a de louças, metais, luminárias e componentes que interferem na estética de Interiores. Mas tivemos algumas exceções como a fabricantes de pressurizadores (Rowa) e válvulas de controle hidráulico (Bermad) que se interessaram em atender os pedidos dos projetistas da Abrasip – Associação Brasileira de Engenharia de Sistemas Prediais. Utilizamos muitos fabricantes que são multinacionais e que muitas vezes tem a biblioteca BIM para os seus mercados da Europa ou EUA. Um ponto importante é sensibiliza-los para produzirem a biblioteca daqueles componentes que são oferecidos para o nosso mercado, o que não vem se mostrando muito fácil.

[FP]: Não temos percebido nenhuma evolução significativa neste sentido por parte dos fabricantes de componentes para MEP. Aliás, o número de fabricantes que disponibilizam bibliotecas é muito pequeno e tem aumentado a passos muito lentos.
Embora não seja nosso foco, a evolução tem sido bem maior em desenvolvimento de bibliotecas para arquitetura por empresas como SAINT-GOBAIN, DECA e DOCOL entre outras.

2. Você já utiliza bibliotecas prontas de fabricantes nacionais e em caso positivo quais são?

[HF]: Sim, utilizamos (as citadas no item 1)

[FP]: As únicas bibliotecas para BIM de fabricantes nacionais que já utilizamos foram da TIGRE e da SAINT GOBAIN, ambas abrangendo algumas linhas de tubulação e suas conexões. Essas bibliotecas compreendem 89 famílias, e todas precisaram ser ajustadas de alguma forma antes de serem colocadas em uso.

3. Quais tipos de problemas tem encontrado com essas bibliotecas, tanto a nível geométrico quanto a não geométrico?

[HF]: A geometria em geral é bastante fiel ao produto, há uma preocupação de que os produtos modelados transmitam a identidade da marca. Por outro lado, o fabricante poderia amenizar o peso gráfico do componente pois não é necessário que o 3D corresponda ao seu projeto industrial (ao contrário). O mais importante é a funcionalidade do componente no modelo de engenharia e a atualização da informação.

[FP]:  Tipos de dificuldades encontradas:
Modelagem das bolsas das conexões não estavam corretas;
Posição dos conectores não estava correta;
Por não terem sido desenvolvidos por nós havia uma dificuldade em se configurar a exibição destes componentes de acordo com o nosso padrão;
Excesso de detalhes desnecessários na modelagem tornava a biblioteca muito pesada e consequentemente o modelo ficava excessivamente grande.

4. Em geral que tipo de propriedades faltam nessas bibliotecas?

[HF]: Para componentes de Sistemas Prediais, em um primeiro momento, são importantes as informações ligadas à operação do sistema ou componente. Parâmetros ligados ao dimensionamento (por exemplo, o coeficiente de vazão de válvulas e conexões – kv) e parâmetros que indiquem o ponto de operação do componente (pressão de operação, set-point, etc.) são importantes para que o modelo possa ser funcional no desenvolvimento do projeto.

[FP]: As propriedades que vieram nas bibliotecas era suficiente para o seu uso em projeto, mas quase não há limite para os tipos de informações que podem ser agregados, visando sua utilização em outras etapas da vida do edifício.
Exemplo de propriedades que poderiam ser incorporados:
Cores de pintura;
Códigos de barra de montagem;
Lote de fabricação

5. Você já se utilizou de repositórios gratuitos, como o bimobject, que é atualmente o mais divulgado ? Caso positivo sentiu algum problema?

[HF]: Sim, em geral os repositórios se comportam como elementos genéricos nos nossos modelos, para que se tenha uma representação exclusivamente 3D. Em alguns casos tivemos problemas com o peso gráfico dos componentes de fabricantes internacionais.

[FP]: Sim, temos utilizado o bimobject, e não tivemos nenhum tipo de dificuldade específica com as bibliotecas.
No entanto, dificilmente usamos uma biblioteca da forma exatamente como foi baixada, sempre são necessários / recomendável alguns ajustes e / ou correções.

6. Bibliotecas como as do bimobject tem basicamente produtos estrangeiros. É aconselhável para o projetista baixar e “arrumar” ou é melhor começar do zero?

[HF]: Acho a proposta da bimobject muito boa, inclusive a forma que produzem os componentes é bastante inteligente, mas novamente, o componente se torna genérico se ele não existe no mercado nacional.

Acho que sim, o componente deveria ser alterado desde que o usuário do modelo (Cliente) tenha que extrair informações do modelo já entregue pelo Projetista. Em caso contrário, o modelo cumprirá a função 3D e o Projetista terá que manipular a informação extraída, se necessário, sabendo da fragilidade da informação do seu modelo.
Um fato importante a se esclarecer é que a modelagem transmite a informação que o projetista ou que a equipe de projeto elabora/desenvolve ao longo das fases do Projeto.

Isso significa que se a equipe de projeto está preocupada com geometria (compatibilização) e não concluiu essa etapa, o projetista da especialidade ainda não terá concluído as especificações técnicas e dimensionamento dos sistemas e, portanto, o seu modelo terá grande chance de carregar muitas informações genéricas, não servindo para outra função.

Por isso, a condução do Projeto com entendimento do Nível de Desenvolvimento da Informação é muito importante para que os modelos não sejam utilizados de forma errada.

[FP]: Varia.
Muitos dos equipamentos e componentes que usamos são baseados em produtos estrangeiros, como transformadores, geradores, chillers, e outros, e alguns fornecedores destes equipamentos são multinacionais, e apesar de não disponibilizarem em seus sites nacionais bibliotecas BIM eles muitas vezes disponibilizam essas bibliotecas em seus sites internacionais, como por exemplo SIEMENS, PHILIPS e EATON.
Baixar e utilizar essas bibliotecas pode poupar considerável trabalho de modelagem, mas isso deve ser analisado caso a caso, baixando bibliotecas de fabricantes internacionais ou mesmo de repositórios como o bimobject e fazer os ajustes necessários.
Em outros casos, (caso quase sempre de tubos e conexões, principalmente de hidráulica, onde as dimensões usadas são diferentes no Brasil) quase sempre é mais fácil começar a biblioteca do zero.

7. Humberto Farina, como participante da comissão da norma, quanto de trabalho ainda falta ser feito até a conclusão.

[HF]: O GT de componentes BIM que participo está buscando mapear a necessidade dos diversos usos do modelo. Assim de maneira gradativa são identificados os parâmetros que são de fato úteis para cada atividade (concepção, eficiência energética, planejamento, orçamento, operação, manutenção, etc.). A dificuldade está em equalizar o conhecimento dos participantes entre as especialidades de domínio e o emprego de aplicações BIM. Por isso, o processo tem sido, por esse ponto de vista, lento, mas muito rico.
Acredito que a norma precisa ter ciclos de edição de acordo com a maturidade do mercado, assim o processo poderia linhas de corte a cada ciclo, abrangendo mais usos do BIM a cada versão.

8. Fabio Pimenta, descreva mais o que achar necessário sobre o tema e se quiser conte sobre como a Projetar superou essa barreira.

[FP]: Uma grande parcela do custo e empenho envolvido na migração para a plataforma BIM está no desenvolvimento de bibliotecas, foi e ainda é onde mais consumimos recursos de desenvolvimento. Por isso é de muita importância que haja um engajamento por parte dos fornecedores de materiais e equipamentos neste desenvolvimento, porém o que percebemos até o momento é que esse movimento ainda está apenas engatinhando, ao contrário dos fornecedores de materiais arquitetônicos, onde percebemos uma movimentação bem maior.

Segue um levantamento que foi feito ao final de 2016 das nossa bibliotecas que estavam em uso naquela data:

Famílias de componentes utilizadas nos projetos:

  • Nativas do Revit:   23 (6%)
  • Adaptadas de fornecedores nacionais:   89 (21%)
  • Adaptadas de fornecedores estrangeiros: 112 (27%)
  • Famílias criadas pela PROJETAR: 192 (46%)
  • Total de famílias usadas em projetos:  416 (100%)

Entrevista de Stefan Larsson, CEO e fundador da bimobject®

 

Carregar mais artigos relacionados
Load More In Artigos
Comments are closed.

Leia também

Os sete Pecados Capitais de um Diretor de Construção na gestão de projetos

Autor: Eng. Luiz Henrique Ceotto (Partner at Tecnoenge Consulting) É na fase de projeto qu…