O mundo empoeirado da construção está se abrindo para a tecnologia digital.

Num setor onde as práticas são basicamente as mesmas há décadas, os canteiros de obras do futuro prometem inovações como modelagem on-line, monitoramento por drones e imagens das obras em realidade virtual.

Liderado por algumas grandes construtoras e um grupo de “startups” que se estende da Austrália ao Vale do Silício, o setor está tentando eliminar os atrasos e estouros de orçamento que frequentemente assolam os projetos.

“Estamos, com certeza, vendo uma rápida mudança rumo à digitalização no setor de construção, com a indústria procurando adotar novas tecnologias para gerar mais eficiência”, diz Alasdair Reisner, diretor-presidente da Ceca, uma associação de empresas de engenharia civil do Reino Unido. Ele vê oportunidades imensas na formação de uma indústria digital da construção.

Estouros de orçamento e atrasos no cronograma são a norma na construção. Grandes projetos geralmente demoram 20% a mais que o planejado para serem concluídos e seus custos podem exceder o orçamento em até 80%, segundo um estudo da consultoria McKinsey & Co.

Além disso, o setor fica atrás de outros nos gastos com pesquisa para desenvolver inovações. Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento relacionados à construção respondem por menos de 1% da receita, comparado com 3,5% na indústria automobilística e 4,5% na aeroespacial, de acordo com o estudo. Somente os setores agrícola e de caça gastam menos com tecnologia da informação.

As margens apertadas e a volatilidade dos retornos no setor são algumas das razões dessa defasagem. Os construtores geralmente hesitam em adotar tecnologias novas e caras que não pareçam oferecer muitas economias.

Ainda assim, dizem especialistas, as tecnologias digitais podem trazer consideráveis benefícios. Um relatório recente da consultoria Boston Consulting Group estima que, dentro de dez anos, a digitalização em ampla escala — planejamento, monitoramento e manutenção baseados em dados, entre outras inovações — vai gerar economias entre 13% a 21% nas fases de projeto, engenharia e construção de obras não residenciais, ou até US$ 21 bilhões por ano globalmente.

Um exemplo foi o planejamento da nova linha de trem Elizabeth, em Londres, orçada em US$ 19,8 bilhões. A Crossrail Ltd., empresa responsável pelo projeto, desenvolveu um modelo virtual em três dimensões para a rede ferroviária. O modelo combina dados dos sistemas de design arquitetônico auxiliado por computador com banco de dados das redes atuais de esgoto e energia elétrica, informações sobre o material necessário e a disponibilidade de trabalhadores nas firmas subcontratadas. Num grande projeto, uma empresa convencional teria que trabalhar com um volume considerável de informações variadas, geralmente usando desenhos impressos e diferentes aplicativos de software que teriam dificuldade para interagir uns com os outros. Tudo isso torna mais provável a ocorrência de erros nas obras.

Com o modelo da Crossrail, os projetistas podiam visualizar como a linha e as estações novas seriam inseridas na infraestrutura existente de estações, dutos e túneis da cidade. Eles podiam fazer mudanças rapidamente nos planos para evitar conflitos, por exemplo, entre o plano de um engenheiro para a ventilação nos dutos e o projeto de outro para os cabos elétricos. Eles também podiam monitorar digitalmente cada componente, atribuindo um número de identificação e um código de barras a cada item para acompanhar sua movimentação ou construção na obra. Quando a linha for inaugurada, em 2018, o modelo vai poder ser usado na administração e manutenção da rede ferroviária.

O modelo 3-D “é uma contribuição substancial para cumprir o cronograma e o orçamento”, diz Malcolm Taylor, líder da área de informações técnicas da Crossrail.

A tecnologia digital também deve acarretar grandes mudanças no trabalho de construção propriamente dito, como na criação de partes para um edifício que possam ser unidas facilmente no local da obra. Em 2014, a chinesa Winsun New Materials afirmou que foi capaz de construir dez casas de 200 metros quadrados cada em apenas 24 horas, usando uma impressora 3-D gigante que a empresa levou 12 anos para desenvolver.

Essas técnicas provavelmente vão se generalizar em breve. A Universidade de Loughborough, na Inglaterra, está desenvolvendo uma impressora 3-D concebida para fabricar estruturas complexas de concreto, como as dotadas de superfícies curvas e outras características arquitetônicas. No fim de 2014, a construtora sueca Skanska AB fez uma parceria com a universidade para desenvolver a tecnologia.

Mas a tecnologia digital não tem só o potencial de criar componentes para edifícios. Ela talvez possa encaixá-los, também.

O SAM, sigla em inglês para Pedreiro Semiautomatizado, é um robô desenvolvido pela empresa nova-iorquina Construction Robotics que realiza tarefas como apanhar tijolos, aplicar o cimento e colocá-los em camadas. Scott Peters, um dos fundadores da empresa, não revela o quanto cobra pelo aluguel do robô, mas diz que, na média, ele deve reduzir o custo da mão de obra em cerca de 50%. (A máquina ainda precisa da ajuda de humanos para inserir instruções por meio de um app de tablet, carregá-la com tijolos e posicioná-la no nível correto.)

A tecnologia também está mudando a forma como trabalhadores interagem com informações que, no passado, estariam enterradas numa pilha de desenhos de plantas e outros arquivos. A Trimble Navigation Ltd., da Califórnia, está testando um software usado em conjunto com o HoloLens, os óculos de realidade aumentada da Microsoft Corp. A meta é permitir a visualização de hologramas de desenhos arquitetônicos sobrepostos ao mundo real.

Com a tecnologia, usuários podem aparentemente “entrar” num projeto enquanto interagem com outras pessoas na obra, o que deve ajudar as equipes de construção a entender melhor os planos e os gestores a monitorar a avaliar as mudanças. Decisões podem ser tomadas mais cedo no processo, economizando tempo e evitando futuras mudanças onerosas, dizem executivos da Trimble.

Fonte: The Wall Street Journal, ROBB M. STEWART

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